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Brasil ficou mais pobre ao perder Dias Leite

Delfim Netto (*)

28 de abril de 2017

Há poucos dias, o Brasil ficou ainda mais pobre. Deixou-nos um formidável engenheiro-economista, com 97 anos, ainda em atividade. Uma personalidade inesquecível: Antonio Dias Leite Júnior. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, em 1965, no Conselho Consultivo de Planejamento (o Consplan), que se destinava a uma análise crítica do Plano de Ação Econômica (Paeg) proposto pelo presidente Castelo Branco.

Sua fama o precedia. Trabalhara na primeira estimação da renda nacional, na FGV, divulgada em 1948. No Paeg assumimos, com o maior respeito e elegância, posições opostas embasadas em visões diferentes e alternativas da nossa economia.

Minha admiração por sua competência, acompanhada de um firme pragmatismo, consolidou uma sólida amizade quando estivemos ambos no governo do general Costa e Silva, com a sua nomeação para ministro de Minas e Energia (1969).

A obra de Dias Leite foi fundamental na consolidação e racionalização do setor de energia do país. Criou a Companhia de Pesquisas Minerais (CPRM) para estimular o conhecimento dos ativos minerais do Brasil. Em 1969 foi fator decisivo nas discussões técnicas, políticas e diplomáticas que tornaram possível a hidroelétrica de Itaipu.

Em 1972 estivemos juntos, apoiados fortemente pelo ilustre ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, num debate (na presença do presidente Emílio Médici), com o general Geisel, então presidente da Petrobras, mas que desde sempre controlara a política do petróleo. O então ministro das finanças francês, Giscard d´Estaing, havia me confidenciado que o cartel árabe faria os preços subirem de forma surpreendente. Depois de 25 anos de vida, a Petrobras produzia apenas 20% do nosso consumo. Logo, o drama das nossas contas correntes era uma tragédia de possibilidade anunciada.

Recomendamos, os três, que se abrisse a exploração a outras empresas para acelerar a produção. O general Geisel rejeitou abruptamente a sugestão, afirmando que “aqui quem entende de petróleo sou eu”, ao que Dias Leite respondeu, “mas quem entende de contas correntes é o ministro da Fazenda”! Depois, na Presidência da República, teve de fazê-lo, mas era tarde demais. Geisel nunca perdoou Dias Leite e o perseguiu com atitudes mesquinhas quando ele deixou o governo.

Incansável, Dias Leite continuou a preocupar-se com o problema da energia. Em 1998, conquistou o prêmio Jabuti com o livro “A Energia no Brasil”, a mais completa obra sobre a energia no Brasil, que teve três edições. Morreu antes de ver publicado o seu 19º livro, “Meu século “” o Brasil que eu vivi”, coordenado por outro competente eletricista, José Luiz Alqueres. Tenho a certeza de que o livro nos reserva mais verdades e surpresas.

(*) ex-ministro da Fazenda e escreve às quartas-feiras na Folha de S.Paulo – Opinião

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