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Odebrecht se organizou para o crime no mundo, afirma Moreira Franco

Jornal Folha de S.Paulo

9 de janeiro de 2017

Secretário de Parcerias de Investimentos do governo Temer, Moreira Franco

Foto por: Divulgação

Brasília (DF) - Secretário de Parcerias de Investimentos do governo Michel Temer, Moreira Franco (RJ) reage às acusações feitas em delações de ex-executivos da Odebrecht contra ele e o presidente da República e diz que a empreiteira “se organizou para o crime não só no Brasil, mas no mundo”.

Em entrevista à Folha, na quinta (5), um dos principais auxiliares de Temer diz que o governo “não deve ter medo das investigações”, mas “conviver” com elas até que as suspeitas sejam provadas.

“Temos mecanismos legais que permitem apurar se isso [suspeita contra Temer] é verdade ou não. E isso ainda não é verdade”, afirmou Moreira.

Ele disse ainda que a fórmula do governo para 2017 será a microeconomia e que medidas serão lançadas nas áreas financeira, de educação e de acesso à tecnologia.

Folha - Michel Temer começa o ano com a economia ainda patinando e baixíssima popularidade. O que fazer para o governo sair do atoleiro?

Moreira Franco - Antes de Temer assumir a Presidência, no documento “Ponte para o Futuro” [do PMDB], já falávamos da profundidade da crise e da devastação que a economia sofreu no governo Dilma.

Víamos a gravidade e dizíamos que o problema não seria resolvido num prazo curto porque a questão era fiscal e não um problema inflacionário. Quando é inflacionário, há mecanismos que permitem obter respostas, inclusive de popularidade, muito mais rápidas do que quando a questão é fiscal.

Folha - O presidente se incomoda com a baixa popularidade?

Moreira Franco – Não é confortável. Uma mulher que se acha bonita e é achada bonita pelos outros tem uma vida muito mais confortável do que a que não se acha bonita ou a que não é considerada bonita. Temer sabe que se, ao final do governo, colocar a economia em ordem, terá reconhecimento.

Folha - Fala-se de mais medidas para a microeconomia e concessões em infraestrutura. Quais serão as novidades?

Moreira Franco – Sobre concessão, fizemos mudanças de natureza regulatória e criamos maior concorrência para que as pessoas se sentissem em um ambiente de segurança jurídica, garantindo previsibilidade. Esse é um resultado estruturante, não micro, e você precisa criar um ambiente de negócios adequado para que as pessoas tenham confiança para investir. E o investimento vai gerar empregos e melhorar a qualidade dos serviços.

Folha – Mas haverá novas medidas?

Moreira Franco – Sim. Não só na área financeira, mas na área da tecnologia, inovação e educação para aumentar a produtividade.

São medidas de impacto no bolso das pessoas, outras de impacto no ambiente da economia e outras de impacto no acesso do brasileiro a um mundo determinado pelas novas tecnologias. A fórmula será a microeconomia. O governo vai enfrentar as reformas no ambiente microeconômico com a mesma determinação com que enfrentou a questão fiscal.

Folha - Pode detalhar as medidas e dizer quando serão lançadas?

Moreira Franco – “Pacote” não existe nesse governo. Não posso detalhar porque isso está em estudo e em discussão entre Temer e a equipe econômica. Sobre o prazo, terão que vir rápido porque temos urgência. Temos um governo de dois anos em que cada dia vale o dobro.

Folha - Empresários estão assustados com a crise. Quando os investimentos voltarão?

Moreira Franco – Este ano será muito mais confortável e produtivo que o ano passado. Isso significa que vamos voltar às taxas de crescimento que já tivemos anos atrás? Ainda não.

Folha - Temer desistiu de fazer uma minirreforma ministerial?

Moreira Franco – Nunca ouvi Temer falar em minirreforma ministerial.

Folha - Não adiantaria para conter insatisfações na base aliada?

Moreira Franco – Não.

Folha - Partidos do centrão reclamam do apoio do governo à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) ao comando da Câmara. Ele é o candidato de Temer?

Moreira Franco – O governo não tem candidato. Mas é claro que tem reflexo na relação com o Executivo o nome que for escolhido para a Câmara e o Senado…

Folha - Por isso Temer tem articulado para desmobilizar possíveis candidaturas contra Maia?

Moreira Franco – Temer não está fazendo essa costura, mas o ideal seria que tivéssemos uma única candidatura [da base]. O melhor candidato é o que tiver maior apoio na Casa. Acho que a dispersão eleitoral sempre deixa sequelas. Estamos vivendo um momento delicado na área econômica e é necessário um esforço para respeitar o que nos ensinou [o poeta] Fernando Pessoa quando disse que “o essencial é o que vale a pena”.

Estamos vivendo um momento delicado na área econômica e é necessário um esforço para respeitar o que nos ensinou [o poeta] Fernando Pessoa quando disse que “o essencial é o que vale a pena”.

Folha - Com uma pauta de reformas importantes a ser votada no Congresso, não é ruim ter focos de insatisfação na base?

Moreira Franco – Lamentavelmente nós somos obrigados a viver com os problemas do dia a dia. Normalmente não é um quadro ideal. A disputa política tem que ser resolvida no Parlamento, que tem instrumentos para isso, como o critério que, infelizmente, no passado recente foi rasgado de a presidência [da Câmara ou do Senado] ser do partido que teve o maior número de votos, as comissões e a composição da Mesa Diretora seguirem o critério da proporcionalidade…

Folha - Nesse critério Maia, do DEM, não seria o presidente.

Moreira Franco – Pois então.

Folha – O critério precisa prevalecer?

Moreira Franco – Não, existem as coligações…

Folha - Temer foi citado pelo menos três vezes nas delações da Odebrecht por supostas práticas ilícitas. Afeta o governo?

Moreira Franco – Não devemos temer esse processo que é extremamente saudável para as instituições políticas e econômicas, pela repercussão empresarial que terá. As investigações que começaram com o mensalão e continuaram com a Lava Jato não afetaram a estabilidade institucional do país.

Folha - Ministros perdem cargos e políticos são presos. Isso não gera instabilidade?

Moreira Franco – É claro que se as questões envolvessem pessoas que não fossem grandes empresários, agentes políticos de grande expressão, partidos com representatividade e história longa no país, nada disso geraria a tensão político-institucional que gera, claro que gera.

Folha -citação a Temer pelo ex-executivo da Odebrecht Márcio Faria não se refere a possível caixa dois, mas a suposta doação eleitoral em troca de favorecimento para a empreiteira em contratos da Petrobras. Não é uma acusação grave?

Moreira Franco – Isso é uma delação, não é uma acusação ainda. É uma acusação de uma empresa que se organizou para o crime. O que nós estamos vendo hoje é que essa empresa estava organizada para o crime, era uma organização criminosa, e não era só no Brasil, era uma organização criminosa no mundo.

Uma dessas pessoas que praticaram crime não só aqui mas no mundo todo disse isso [sobre Temer]. Nós temos mecanismos legais que permitem apurar se isso é verdade ou não e isso ainda não é verdade. Lamentavelmente como a figura pública das pessoas que são citadas têm muita expressão há uma certa espetacularização de uma delação que não há prova e que ainda vai ser avaliada pelas instâncias legais.

Folha - Esse não era o discurso do PT quando alguém do partido aparecia em uma delação?

Moreira Franco – Desde o mensalão até agora, já teve provas, julgamento, condenações e prisões. Tem uma diferença fundamental: o PMDB jamais se organizou como partido político para a prática do delito… você tem pessoas que eventualmente cometeram [delito].

Folha - Eduardo Cunha (RJ) enviou uma série de perguntas a Temer quando o arrolou como sua testemunha de defesa na Lava Jato. Cunha quer constranger o presidente?

Moreira Franco – É irrelevante saber se Cunha está tentando ou não constranger o presidente.

Folha - O governo teme que Cunha fale o que sabe?

Moreira Franco – Não.

Folha - Além de Temer, o senhor e o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) foram citados por delatores da Odebrecht. Temer já comunicou que pretende mantê-los no governo?

Moreira Franco – Temer já deu declaração pública [que sim]. Fiquei indignado porque o que Cláudio Melo Filho [delator] faz não é nada além de suposição. Nunca conversei sobre recursos de campanha com ele e, aliás, ele diz isso.

Marina Dias (Folha de S.Paulo)

Entrevista publicada no jornal Folha de S.Paulo – em 08 de janeiro de 2017

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